À conversa com Ana Almada artigo

Licenciada em Psicologia Educacional e Mestre em Psicologia Comunitária pelo ISPA-IU, Ana Almada é atualmente Doutoranda pelo ISPA-IU e faculdade de Motricidade Humana, com um projeto de investigação intitulado: “A Criança, Tempos e Espaços de jogo e lazer: estudo da independência de mobilidade, rotinas de vida quotidiana e perceção do espaço urbano em crianças de 8 e 12 anos de idade do município de Cascais”.

 

Introduzir um carácter lúdico na aprendizagem pode ajudar uma criança a aprender melhor?

Brincar é antes de mais um Direito da Criança reconhecido pela Convenção Internacional dos Direitos da Criança, que Portugal ratificou em 1990, e que tem um carácter vinculativo para os estados. O brincar livre, em particular, é o veículo para a criança explorar e aprender, desenvolver novas habilidades e competências, para se ligar aos outros, para descobrir e seguir os seus interesses, explorar o desconhecido, ligar resultados a escolhas, ultrapassar medos, fazer amigos. O Brincar é assim central ao bem-estar emocional e saúde mental das crianças. Ora quando falamos da educação,
falamos de educação de crianças e jovens em desenvolvimento e o Brincar é a atividade primordial da criança em desenvolvimento, é a sua linguagem
natural e a forma de se relacionar com o mundo. Enquanto brinca a criança estabelece ligações importantes para o desenvolvimento de competências‑chave que servem de base para o sucesso ao longo da vida, incluindo pensamento crítico, comunicação, resolução de problemas e colaboração, as competências para o século 21 de que hoje tanto se fala, que complementam os conhecimentos nucleares de literacia e numeracia. Portanto, introduzir a ludicidade nos contextos de aprendizagem formais e não formais é respeitar a linguagem da criança/jovem e a sua forma
natural de aprender.

 

Hoje brinca-se e joga-se pouco?

Nas sociedades de hoje, espera‑se e valoriza-se cada vez mais e mais cedo o que as crianças devem conhecer e ser capaz de fazer em áreas puramente
académicas. Como resultado, o tempo das crianças é cada vez mais estruturado e focado em objetivos e metas de aprendizagem, e o tempo de brincar livremente é cada vez mais desvalorizado e ignorado... Nós, muitas vezes, nem paramos para pensar que muitas crianças passam mais tempo na escola por semana do que um adulto no local de trabalho ou que muitas crianças têm menos tempo livre para brincar ou fazer nada do que muitos presos têm nas cadeias... ou ainda que a maioria dos recreios das nossas escolas são ambientes pobres e pouco estimulantes do ponto vista físico, material e humano e que o brincar ao ar livre, na natureza e com elementos naturais é praticamente inexistente nas rotinas diárias das nossas
crianças e jovens... Isto deveria preocupar-nos seriamente! Sem uma profunda compreensão do valor da atividade lúdica e das formas de incentivar o jogo livre na criança, corremos o risco de as privar da dinâmica que impulsiona o seu desenvolvimento como aprendizes e criativos, curiosos, reflexivos, inovadores e participativos, precisamente as características que se valorizam no contexto educacional, pessoal e profissional nos cidadãos de hoje.

 

O gosto pelo jogar é algo eminentemente presente nas crianças ou é transversal?

O jogo é uma característica intemporal das sociedades humanas, que permite às crianças e adultos a oportunidade de se experimentarem e ao seu
ambiente, improvisando e descobrindo, construindo e inovando. A observação e a investigação têm fornecido dados que levam a constatar que o brincar parece presente em todas as culturas e em diferentes épocas, quer no passado, quer no presente, sendo como que um elemento cultural universal. A compreensão do significado do brincar na criança sai reforçada com uma visão ampla que inclui referências à universalidade do brincar pelas diferentes culturas e por diferentes espécies animais. De acordo com Jaak Panksepp (“The Archaeology of the Mind”), uma abordagem científica
rigorosa ao brincar/jogo revela que todos os mamíferos possuem como que um sistema cerebral fundamental que explica a inclinação universal a jogar, a que ele chamou de “PLAY system”. As investigações atuais sugerem que este sistema cerebral pode ser especialmente importante no desenvolvimento epigenético e na maturação do neocórtex, estando o seu circuito no cérebro ligado anatomicamente à zona subcortical, ou seja, ligado às antigas funções baseadas na sobrevivência. Não admira que encontremos registos de elementos lúdicos em diferentes épocas e culturas! Por  vezes jogar está associado a competição – isso tem mais de positivo ou negativo? Existem diferentes tipos de jogo e de brincar e todos conhecemos inúmeros jogos cujo objetivo é ganhar e onde necessariamente competimos com os outros jogadores, quer individualmente quer em grupo. Quando competimos somos estimulados a desenvolver um conjunto de habilidades intelectuais e até físicas... veja-se o exemplo dos diversos desportos ou de jogos de tabuleiro e jogos de mesa, onde temos de desenvolver um raciocínio e estratégias, trabalhar por um objetivo (e um objetivo comum no caso das equipas), ter reflexos rápidos, ser capaz de antever as ações dos adversários e estar preparados para lhe dar resposta. Em todas estas situações estamos a desenvolver competências que depois serão úteis nos nossos vários contextos de vida. Diria que a questão não será tanto a competição em si, mas a valorização maior ou menor que se faz de ganhar e de perder. E é importante, se trabalhamos com crianças e jovens que estão em desenvolvimento, cuidar tanto da relativização do ganhar/perder e da regulação emocional nestas situações, como dos valores, competências e aprendizagens que se retiram da COOPERAÇÃO. Afinal, se não tivéssemos aprendido a cooperar ao longo dos nossos últimos milhares de anos de evolução, muito provavelmente não teríamos tido grande sucesso na sobrevivência da nossa espécie! 

 

Nas Guias procuramos contribuir para a formação de caráter através de uma pedagogia ativa baseada no jogo e muitas vezes aliada ao ar livre – considera essa forma de educar positiva? Porquê?

Muito positiva! Repare, uma pedagogia ativa parte da visão atual da infância: a criança como cidadão ativo e participativo, com direitos e competências próprias, com as suas ideias e necessidades, sujeito ativo do seu próprio desenvolvimento e aprendizagem, valorizando a curiosidade pelo mundo que a rodeia e a aprendizagem pela experimentação, que são também elementos do brincar, e que são fundamentais em toda a escolaridade e ao longo da vida para equipar os cidadãos das competências necessárias para a vida, trabalho e participação cívica em sociedade. Quanto à natureza e ao ar livre: sobretudo nos meios urbanos temos um claro e sério deficit de natureza. A vitamina N(atureza) devia ser receita diária para todos nós, miúdos e graúdos. Foi nesse elemento que nos desenvolvemos como espécie ao longo de milhares de anos, é nesse elemento que nos reconhecemos naturalmente. É a nossa casa. E só aprendemos a cuidar da nossa casa se tivermos relação com ela, se tivermos possibilidade de entender a interdependência dos elementos naturais e da nossa posição no ecossistema. O relatório da UNICEF (2012) sobre a Situação Mundial da Infância é claro: “as crianças precisam também ter acesso à natureza. Um amplo conjunto de evidências mostra que a exposição a árvores, água e outros aspetos da paisagem natural tem impacto positivo sobre a saúde física, mental, social e espiritual das crianças” (p. 62). Refere ainda a importância do brincar e do tempo livre e de lazer como um direito e uma componente importante do desenvolvimento saudável com inúmeros benefícios como o desenvolvimento de habilidades motoras avançadas, alívio para o stress e ansiedade, promoção da cognição, da criatividade e da socialização das crianças ou ajuda no controlo das taxas crescentes de obesidade e excesso de peso. Não é coisa pouca!

 

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